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Água, o grande desafio do milênio
Recurso fundamental e cada vez mais essencial à sobrevivência humana, o fator hídrico demanda investimentos crescentes e utilização de tecnologias modernas
É cada vez mais forte o consenso de que a crise da água determina o presente e o futuro de uma metrópole como São Paulo. A recuperação dos recursos hídricos, a proteção dos mananciais, a redução das inundações e a garantia do pleno abastecimento de água à população são os grandes desafios deste fim de milênio. E sua superação exige também a participação popular, para que planos e projetos previstos para a região possam ser equilibrados em função do interesse geral. No inverno passado, parte dos mais de 17 milhões de habitantes da Grande São Paulo sofreu com cortes em seus suprimentos de água. Foi uma racionalização compulsória do consumo, a exemplo do já verificado em outros anos. Na cabeça do cidadão comum o fator diretamente responsável por essa situação continua sendo apenas a "falta de chuvas". E nem poderia ser de outra forma. Pela TV, rádio e jornais, a justificativa veiculada assume um tom recorrente: o racionamento é adotado por causa do baixo nível de água das represas que ficam comprometidas em virtude da estiagem. Racionalizar o uso da água, no entanto, não deveria ser sinônimo de privação do líqüido por determinados períodos, mas sim o de utilizá-lo educadamente e sem esbanjamento. É sabido que o consumo da água costuma manter uma relação proporcional com o dinheiro gasto no seu tratamento. Em São Paulo, estudos demonstram que mudanças de hábito no uso da água permitiriam uma economia de quase 80%. Ao se abrir uma torneira começa a seqüência de provimento da rede de esgoto. A cada 15 bilhões de metros cúbicos de água consumidos por ano são gerados 9 bilhões de metros cúbicos de esgoto. E é sempre bom lembrar que, mesmo sendo um bem renovável, a água não tem ciclo infinito. Ela não pode ser preservada, e sim cuidada.
Crise - O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, Hugo Marques da Rosa, pondera que existem alguns indicadores internacionais relacionando a disponibilidade de água de uma bacia pelo número de habitantes de uma região, que colocam a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) numa classificação alarmante. Por esses indicadores, é considerada "crítica" a disponibilidade de 1,5 mil metros cúbicos/habitante. "Ora, no caso da bacia do Alto Tietê, nós temos cerca de 200 metros cúbicos/habitante, isto é, um sétimo daquilo que já é considerado crítico". Só para se ter uma idéia – relaciona Rosa –, um dos Estados mais secos do País, Pernambuco, tem mais água por habitante que a Grande São Paulo. Motivo de sobra para se considerar que nossa questão de escassez é realmente séria. "A gravidade se manifesta também no fato de que 55% da água consumida na região vem de fora da bacia do Alto Tietê, ou seja, da bacia do Piracicaba/Capivari/Jundiaí, que, por sua vez, é a segunda bacia mais crítica do Estado". Criado pela Lei Estadual de Recursos Hídricos, o comitê do Alto Tietê é o "parlamento da água" na Região Metropolitana. É um conselho tripartite em que Rosa, além de presidente, representa o Instituto de Engenharia, como entidade da sociedade civil. Todas as questões ligadas aos usos dos recursos hídricos deverão ser debatidas e decididas nesse foro democrático, constituído de representantes do Estado, dos 34 municípios da bacia e das entidades da sociedade civil, com participação paritária. O plenário do comitê tem 48 membros, com 16 representantes por segmento. Em seu quinto ano de existência, o comitê estendeu sua estrutura: foram organizados cinco subcomitês regionais, deliberativos no âmbito de suas áreas de atuação. Uma visão por outro ângulo mostra que a triste realidade com que cronicamente se defronta o Continente é a de que a água contaminada e a falta de saneamento continuam sendo responsáveis por cerca de 30 por cento dos óbitos na América Latina, índice seis vezes maior do que o dos países adiantados. Exemplo da importância crucial de se dotar as comunidades de instalações adequadas de saneamento: mais de 60% das internações hospitalares no Brasil decorrem da falta desse serviço.
Metas - Em 1995, no início da atual administração estadual, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) estabeleceu como meta chegar a 100% de atendimento da população urbana com abastecimento de água e 85% com coleta de esgotos, além de elevar para 60% o índice de tratamento de esgotos coletados. Partiu-se para ações no litoral e no interior, e para duas realizações de grande magnitude na Grande São Paulo: o Programa Metropolitano de Água (PMA) e o Projeto Tietê. Em outubro do ano passado, a Sabesp anunciou que o atendimento com água havia sido elevado de 89% para 100% da população. Além disso, o total de domicílios dotados com ligações de esgotos havia passado de 64 para os 85% previstos. Também os índices de tratamento de esgotos coletados, que eram de 29%, em 1994, chegaram a 60%. Subordinada à Secretaria de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras do Estado de São Paulo, a Sabesp produz, diariamente, cerca de 63 mil litros de água por segundo para atender 17 milhões de pessoas. São 31 cidades operadas na RMSP e mais sete municípios que compram o líqüido da empresa, por atacado: Mogi das Cruzes, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Santo André, Guarulhos e Mauá. A Grande São Paulo é circundada por um cinturão verde de onde provêm as águas superficiais para vários usos, entre eles abastecimento público e indústria, irrigação, geração de energia, lazer, transporte e diluição de poluentes. Até chegar à casa do cliente a água percorre um longo caminho, saindo dos mananciais (lagos, rios ou represas) para as estações de tratamento, percorrendo tubulações com grandes extensões e diâmetros (adutoras) até chegar aos reservatórios e ser distribuída à população. Para isso, existem oito sistemas produtores de água, 1.340 quilômetros de adutoras, 22.843 quilômetros de redes de distribuição e 119 centros de reservação, com capacidade para armazenamento de 1,8 milhão de metros cúbicos de água na RMSP...
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