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A malha logística do

gás natural

 

Foi de 60 minutos apenas o tempo de permanência do presidente Fernando Henrique Cardoso na estação de compressão da Petrobras em Biguaçu, na Grande Florianópolis, em Santa Catarina, no último dia 31 de março, para a inauguração do segundo e último trecho do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol). Mas a atmosfera da cerimônia evocava uma simbologia toda especial. Afinal o traçado do trecho Sul do gasoduto define uma malha logística que liga, nas extremidades, as cidades de Campinas (SP) e Canoas (RS) – numa extensão de 1.180 quilômetros – e foi demarcado para atender a um mercado responsável por 82% da produção industrial brasileira, 75% do PIB e 71% do consumo energético nacional. Para uma platéia selecionada de cerca de 400 empresários e políticos, FHC reafirmou que "a demanda de energia está crescendo e o gás natural vai gerar empregos, oportunidades e renda, para que não apenas os catarinenses, mas todos os brasileiros possam crescer".

Representando um investimento total de aproximadamente US$ 2 bilhões, a implantação do Gasbol – cujo primeiro trecho, de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, a Campinas, em São Paulo, foi inaugurado há quase um ano – é considerada a mola propulsora para uma mudança de perfil da matriz energética brasileira. A obra contou com financiamento do Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Corporación Andina de Fomentos (CAF), Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco Europeu de Investimentos (BEI) e agências de crédito à exportação, além de recursos próprios dos sócios, entre eles a majoritária Petrobras (por meio de coligadas), consórcios BGB (25%) e YPFB-Enron-Shell (20%) e a Gaspart (4%).

Pelo planejamento do governo federal, até 2010 o gás natural deverá participar com 12% da energia consumida no País, contra os atuais 2,8%. Não é pouco, mas é preciso lembrar que em países como Estados Unidos, a participação do gás natural é de 26,7%. Na Argentina o percentual sobe para 51%. Segundo o presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, "o gás natural não acabará com a dependência brasileira atual em relação ao petróleo internacional, mas dará um novo rumo à economia do País".

De qualquer forma, na visão de Djalma Rodrigues de Souza, presidente da Gaspetro – (subsidiária da Petrobras responsável pela comercialização do gás natural, tanto o produzido no País como o importado, assim como pela implantação de projetos em parceria com o setor privado) –, a maior oferta de gás natural ao mercado brasileiro, a partir da inauguração do trecho final do Gasbol, já muda o perfil da matriz energética nacional, trazendo, a curto prazo, uma significativa melhoria da qualidade de vida. "Os estados do Sul, assim como São Paulo e Mato Grosso do Sul, terão a garantia de fornecimento de uma energia limpa, a preços competitivos e que proporciona melhoria na qualidade de produtos para entrega no mercado nacional ou para exportação", diz ele.

O diretor comercial da Gaspetro, Paulo Roberto Costa, esclarece que o Brasil vai importar da Bolívia 30 milhões de metros cúbicos/dia de gás natural, dos quais 3,5 milhões já estão sendo escoados através do Gasbol. "Além disso, vai importar 9 milhões de metros cúbicos/dia da Argentina, por meio da Gaspetro, e mais 3 milhões por meio da companhia gaúcha Sulgás". Este volume, segundo ele, é suficiente para atender à demanda a médio prazo.

 

Baixos teores - O gás natural é encontrado em rochas porosas no subsolo, podendo estar associado ou não ao petróleo. Normalmente, apresenta baixos teores contaminantes, como nitrogênio, dióxido de carbono e compostos de enxofre. Mais leve que o ar, o combustível dissipa-se facilmente na atmosfera em casos de vazamento. Para que inflame, é preciso que seja submetido a uma temperatura superior a 620 graus centígrados (ºC). Comparação: o álcool se inflama a 200 ºC e a gasolina a 300 ºC. Além disso, é um combustível não poluente, não provocando a degradação do meio ambiente.

Citando um exemplo marcante, o coordenador da Divisão de Energia do Instituto de engenharia, engº Leo Kawabe, lembra que "Cubatão, no litoral paulista, só está conseguindo se tornar habitável em função de que 90% das numerosas indústrias ali instaladas já fizeram a conversão para o gás natural, abandonando o uso de óleos pesados de refinaria". Com efeito, nunca mais se teve notícia, pela mídia, de casos de anencefalia (ausência de cérebro) em recém-nascidos em Cubatão, ocorrências que, em passado recente, se repetiram diversas vezes na região.

Justamente por proporcionar uma combustão isenta de agentes poluidores, o gás natural é ideal para processos que exigem a queima em contato com o produto final, casos da indústria cerâmica e de fabricação de vidro e cimento. Também pode ser utilizado como redutor siderúrgico na fabricação de aço e, de formas variadas, como matéria-prima. Dois exemplos: na indústria petroquímica, principalmente para a produção de metanol, e na indústria de fertilizantes, para a produção de amônia e uréia.

No uso em automóveis, ônibus e caminhões, o produto recebe o nome de gás veicular e é vantajoso no custo por quilômetro rodado. Como é seco, não provoca resíduos de carbono nas partes internas do motor. Isso, se de um lado aumenta a vida útil dos motores, de outro reduz os custos de manutenção para o usuário. A distribuidora paulista Comgás - Companhia de Gás do Estado de São Paulo, por sinal, está levando bastante a sério esse mercado. Segundo o diretor de marketing comercial, residencial e veicular da concessionária, Barry Thomas Adams, "o mercado do gás veicular no momento é pequeno, mas tencionamos expandi-lo em dez vezes mais nos próximos cinco anos, principalmente pelo seu grande potencial, já que é muito bom para a preservação do meio ambiente, além de sair barato para o consumidor final".

No uso em casas ou condomínios residenciais, é chamado de gás domiciliar. Trata-se de um mercado em franca expansão, especialmente nos grandes centros urbanos. As companhias distribuidoras estaduais têm planos de grande ampliação de suas redes e o aumento do consumo do gás domiciliar demanda investimentos expressivos em conversões (do GLP fornecido pelas refinarias para a nova fonte de energia) e em recebimento e adaptações nas residências.

Segundo o presidente da Associação Brasileira do Gás - ABG, Laerte Monetti, o processo de conversão residencial do GLP para o gás natural já vem acontecendo num ritmo satisfatório. "Praticamente todas as conversões de fogões domésticos já foram feitas na capital paulista e já existe também uma padronização dos aparelhos de medição de consumo de gás", assegura ele....

 

         

     

 

             
     

 

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