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Cenas de uma revolução no sistema construtivo
em pré-fabricados metálicos em execução no canteiro de obras do Frei Caneca Shopping e Convention Center, na região central de São Paulo, vira atração e torna habitual as visitas de empresários e alunos de Engenharia e Arquitetura
Para grandes dificuldades, grandes soluções. Cenas explícitas de como tocar uma obra de engenharia de grande porte num local com alta densidade populacional e intenso movimento de carros, sem incomodar demasiadamente a vizinhança, podem ser vistas no bairro de Bela Vista (perto do velho Bixiga), na parte nobre do centro da capital paulista. Lá, com fachada principal voltada para a rua Frei Caneca e a posterior para a rua Dr. Penaforte Mendes, está em fase de execução o Frei Caneca Shopping e Convention Center. Trata-se de uma obra realmente grande numa área relativamente pequena: 9 mil metros quadrados de terreno para exatos 73,26 mil metros quadrados de área construída projetada. "A obra desperta tanta curiosidade que está sendo visitada semanalmente tanto por alunos de escolas de Engenharia e Arquitetura, como por investidores e empresários do setor de construção civil", confirma o engenheiro Newton Duarte Barros, diretor da Zeenni Reis Barros Engenharia e Construção, a empresa responsável pela execução do projeto (e que também gerencia a obra). Duarte conta que, quando acompanha as pessoas que visitam a obra, a sensação que as mesmas têm, segundo vários relatos ouvidos, é de que "está tudo parado". Isso, apesar de haver cerca de 140 empregados da construtora em ação no local. "O que está acontecendo aqui?", é o que mais se ouve perguntar. "Mas, se os mesmos visitantes voltarem uma semana depois, notarão grande diferença", diz ele. A explicação é que no canteiro de obras da rua Frei Caneca não se percebe aquela confusão, aquele formigueiro que caracteriza outras obras. "Aqui os serviços se iniciam e se encerram a cada passo, num processo sem idas e vindas", define ele. E faz uma comparação: "Se uma obra normal conta com 100 etapas, nós estamos tentando reduzi-las aqui para 40 ou 50". Num terreno urbano, localizado em uma área central da metrópole, a interferência de construções e fundações antigas representa um desafio de difícil previsão, além de exigir uma constante agilidade na desobstrução dos serviços. Solução encontrada pela construtora Zeenni Reis Barros: empregar um mix de sistemas industrializados, para eliminar algumas atividades dentro da obra ou fazê-las fora. Ao iniciar o desenvolvimento do projeto, Barros respirou fundo e cogitou que, se é que a construção civil está passando por uma revolução nos canteiros de obra e na aplicação de sistemas construtivos pré-fabricados – o que de fato está –, apresentava-se ali uma grande oportunidade de demonstrar isso, buscando as soluções mais racionalizadas possíveis. "Depois de exaustivas reuniões com projetistas e consultores, chegamos à conclusão de que a solução mais viável, por permitir muito mais agilidade, seria a estrutura metálica, principalmente com a tecnologia steel deck, ainda pouco utilizada entre nós", explica ele. Na visão de Barros, a rapidez oferecida por esse sistema construtivo deve-se à simultaneidade de serviços. "Enquanto é feita a terraplanagem, por exemplo, podem ser realizados também os projetos executivos e iniciar a fabricação". A solução torna tudo mais simples, eliminando-se os transtornos de transporte vertical. Se for levado em conta o aumento do preço do cimento ultimamente, então, a escolha se revela mais interessante ainda. Com o sistema steel deck suprime-se, ainda, todo o trabalho de carpintaria (madeiras, fôrmas, madeirites, pregos, serras etc.), o que resulta numa diminuição dos ruídos produzidos por essa fase da execução da obra. "Isso, além de beneficiar os próprios profissionais no canteiro, reduz o incômodo para os moradores da região", pondera ele. Uma das maiores comprovações da inovação tecnológica introduzida pelo Frei Caneca Shopping e Convention Center é a comissão formada pelo Sindicato da Indústria de Construção Civil do Estado de São Paulo - SindusCon/SP, com o objetivo de revisar a NR 18, visando estabelecer condições e meio ambiente de trabalho adequados na indústria da construção civil. A comissão é composta por 14 membros, representantes do SindusCon, do Sindicato de Trabalhadores e do próprio Ministério do Trabalho, que estão revendo a lei, avaliando as adaptações necessárias aos diferenciais de um projeto em estrutura metálica.
Pioneirismo - O Frei Caneca Shopping e Convention Center é o primeiro empreendimento multifuncional de São Paulo, por reunir, num único local, um shopping, um centro de convenções, eventos e teatro e um business hotel. "Nos mais de 73 mil metros quadrados estarão incluídos cinco sub-solos para estacionamento, um hipermercado no piso térreo inferior e mais 182 lojas distribuídas no térreo superior e primeiro e segundo pavimentos", detalha Barros. Cinemas, teatros, galerias de arte, gourmet center, praça de alimentação e um heliponto com sala vip complementam o projeto. Estão previstas duas inaugurações no primeiro semestre de 2001, a do centro de convenções, em março, e a do shopping center, em abril. "No final do ano que vem ou, o mais tardar, início de 2002, estaremos entregando o hotel", antecipa Barros. Segundo ele, mais de 60% das lojas já estão comercializadas. "Assim como já está tudo acertado em relação às âncoras, ao teatro, centro de convenções, cinemas, gourmet center e supermercado". A escolha do bairro da Bela Vista para a construção do shopping é justificada por Barros pelo fato de se tratar de região muito próxima do centro financeiro (a rua Frei Caneca, a certa altura, faz cruzamento com a avenida Paulista, que sedia grandes bancos e instituições financeiras e de seguro) e à região nobre dos Jardins. "Constatamos também, por meio de pesquisas, que havia ali uma grande carência de empreendimentos comerciais", diz ele. Barros ilustra, lembrando que um contingente de cerca de 140 mil pessoas que moram na região estava desabastecido em termos de áreas comerciais. "Sem contar o grande número de escritórios, com milhares de funcionários que saem na hora do almoço à procura de restaurantes e lanchonetes". Além disso, aponta ele, a área estava muito deteriorada em termos de coisas novas. "Empreendimentos antigos por todo lado, lojas velhas, tudo muito desgastado". A idéia foi então construir algo que se diferenciasse dos inúmeros shoppings inaugurados recentemente e que, por sinal, acusam vacância (um número de lojas não locadas). "O objetivo foi energizar o máximo possível, incluindo supermercado, cinema, teatro e centro de convenções", afirma Barros. Ele salienta que a região próxima à avenida Paulista não conta com uma área grande para convenções. "E, quanto ao teatro, basta lembrar que a Bela Vista é o paraíso dos teatros, uma região muito cultural". O centro de convenções terá uma área de 2,3 mil metros quadrados, no quarto pavimento, que será dividida em salas de 50 a 500 metros quadrados, conforme a necessidade de lotação do evento. Uma grande área de 4,5 mil metros quadrados, no quinto pavimento, será reservada para a realização de feiras. Também servirá para bailes de formatura, casamentos, grandes coquetéis, grandes exposições e mega-reuniões para duas mil pessoas. Segundo Barros, no campo das artes, o complexo contará, entre outras coisas, com uma escola de televisão, que ficará a cargo de Wolf Maia. "Será a primeira escola de TV da América do Sul de que se tem conhecimento. Sei apenas que existe uma nos Estados Unidos e outra na Inglaterra. A daqui não será só para atores, mas também para diretores de TV, contra-regras, cenógrafos, tudo, enfim, que envolve a atividade". O teatro, por seu lado, terá como responsáveis e promotores também Wolf Maia, em conjunto com o ator Sérgio Mamberti. Quanto ao cinema, terá um espaço para acomodar 100 poltronas. "Será basicamente um cinema de arte", antecipa ele.
Estrutura - A estrutura metálica steel deck pode ser considerada, na visão de Barros, como o carro-chefe da execução do empreendimento. "Ela entra como o fator que desencadeou o restante das atividades". Até onde é possível saber, não há neste momento, em todo o Brasil, uma obra que esteja sendo executada com o nível de verticalidade do shopping da rua Frei Caneca. "Não me refiro a tonelagem, mas sim a verticalidade mesmo", enfatiza ele. O desafio foi tanto maior pelo fato da estrutura metálica ter sido colocada num grande buraco. O steel deck é uma tecnologia em aço galvanizado, uma pré-fôrma que não precisa de escoramento. "Ele faz o papel de uma armadura positiva, só depois é feita uma armação complementar e uma capa de concreto", explica o engenheiro Carlos Valério Amorim, da Codeme Estruturas Metálicas, empresa que desenvolveu a estrutura metálica utilizada no empreendimento. A Codeme, uma das maiores empresas do País no segmento de construções em aço (já executou mais de 1.500 obras no Brasil, em 20 anos de existência), foi responsável pela engenharia, projeto, fabricação, montagem e proteção passiva contra incêndio – já atendendo, inclusive, à nova norma NBR 14.323 – do Frei Caneca Shopping e Convention Center. Foi atendida uma área de laje de 64 mil metros quadrados, distribuída em 13 pavimentos, que consumiu 3,2 mil toneladas de aço estrutural e 700 toneladas de Steel Deck Metform. Até há pouco tempo - esclarece Amorim -, a estrutura metálica era feita com a laje de concreto. "Hoje temos um sistema completo, ou seja, pilar, viga e laje, tudo em aço. O pilar e a viga são fabricados com um tipo de aço; e a laje, em outro tipo, galvanizado". Ele explica que a laje tem que ser em aço galvanizado porque vai, agregado a ela, o concreto, que contém água. Nessas condições, não poderia ser utilizado um aço simples: "a fusão do concreto com essa chapa galvanizada forma uma estrutura, um piso armado, e por isso precisa ser galvanizada". Em resumo, a própria estrutura metálica é o esqueleto da obra. Ela vai apoiada tão somente nas fundações da edificação. Mas o steel deck oferece outras vantagens, como, por exemplo, ser isento de proteção passiva. Quem explica isso é outro integrante da Codeme, o engenheiro Norimberto Ferrari. "A estrutura metálica é toda ela protegida, além de ser um material com alto índice de eficiência e que tem um custo compatível com a realidade brasileira de mercado". Ferrari lembra que, antigamente, a necessidade de tratamento com pintura betuminosa acabava inviabilizando economicamente a estrutura metálica. "Não tanto pelo custo direto, mas pelo agregado que se é obrigado a fazer". Barros comenta, por sua vez, que a utilização dessas estruturas ocorre em esquemas normais, modulares, como acontece, por exemplo, com os pré-moldados em concreto. Mas, nesses casos, o que se vê, como resultado final, são galpões regulares, padronizados. "Aqui é bem diferente. Em nossa obra, o desnível chega a 18 metros". No caso, a estrutura da região do desnível, no subsolo da obra, está recebendo todo o empuxo, de forma desigual, conforme a altura de cada parede – apesar de receber tirantes provisórios, como se verá adiante. "Para cima, no entanto, a obra transforma-se num prédio convencional, apesar do empreendimento ser 100 por cento metálico... não tem nenhum coração de concreto ali"...
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