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Francisco Romeu Landi " E M I N E N T E E N G E N H E I R O D O A N O 2 0 0 0"
Os engenheiros brasileiros são protagonistas importantes num cenário em que o empresariado nacional luta para formar uma cultura de inovação, sinônimo hoje de "adicionar valor à produção via novas tecnologias"
O Eminente Engenheiro do Ano 2000, Francisco Romeu Landi, um paulistano de 67 anos, como tantos outros que dão um especial brilho a essa atividade profissional, teve sua vida plasmada na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Poli – um dos legítimos orgulhos dos paulistas. Lá ele se formou como engenheiro mecânico-eletricista, em 1956, e lá também obteve o título de Doutor em Engenharia Química, em 1972. Na mesma Poli, foi professor titular em Engenharia Civil (1986), vice-diretor (1986/1988) e diretor (1989/1993). "Uma das grandes alegrias da minha vida, aliás, foi a de o centenário da Escola Politécnica ter ocorrido justamente durante a minha gestão", diz ele. Atualmente, Landi é diretor-presidente de outro – e mais recente – orgulho não só do povo bandeirante como de todos os brasileiros: a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - Fapesp. Como se recorda, a Fapesp logrou, no início de 2000, uma façanha única no mundo: o mapeamento completo do genoma da bactéria Xylella fastidiosa, que provoca a praga do "amarelinho" nos laranjais. A conquista colocou a pesquisa brasileira no seleto clube dos países que dominam a engenharia genética molecular. Nesta entrevista exclusiva à REVISTA ENGENHARIA, Landi fala da responsabilidade dos engenheiros como protagonistas importantes na batalha pela criação de uma cultura de inovação tecnológica, sem a qual o Brasil não poderá competir mundialmente, com qualidade e produtividade. "Somos quase 1 milhão de engenheiros no País, mas a indústria nacional ainda emprega poucos engenheiros e cientistas dedicados à pesquisa e desenvolvimento", alerta ele, lembrando que nos países em que a competitividade é levada a sério a indústria se preocupa muito com a inovação. A seguir um resumo da entrevista.
REVISTA ENGENHARIA – Como o senhor vê o atual momento da engenharia brasileira? LANDI – Acho que a engenharia brasileira está sujeita à estrutura econômica do País. Acho que o tema pode ser olhado de duas maneiras. De um lado, deve-se considerar a tecnologia enquanto ferramenta utilizada pelo sistema. De outro, trata-se de examinar a tecnologia em si própria. Quando se olha a tecnologia como parte do sistema, a questão assume uma natureza mais econômica e, na verdade, isso depende de um conjunto complexo que vai desde a cotação do dólar, inflação, balança comercial, desembarque de capitais estrangeiros, onde esses recursos estão sendo aplicados, e assim por diante. Nessa visão mais macro, a pesquisa tecnológica acaba por se submeter a aquela que é desenvolvida nos centros mais tradicionais de suas origens, vale dizer, países mais adiantados. Devo admitir, no entanto, que isso é algo que escapa a uma análise mais profunda de minha parte, pois aí a gente tem pouca ingerência. A coisa depende mais de decisões de natureza nacional.
REVISTA ENGENHARIA – E a análise da tecnologia em si própria, que o senhor propõe como segunda visão do assunto? LANDI – Por esse lado dá para analisar um pouco melhor. Aí o Brasil tem gente muito competente. Só de engenheiros somos quase 1 milhão, todos criando, no seu dia a dia, alguma inovação, modificando a tecnologia enquanto a utiliza e desenvolvendo algum aspecto novo. Mas há uma contrapartida importante: são poucos os engenheiros que fazem inovação efetiva, mais radical e significativa. A indústria brasileira emprega poucos engenheiros e cientistas dedicados à pesquisa e desenvolvimento. Do total desses pesquisadores, a indústria brasileira dá ocupação a cerca de 10%, ao passo que nos países de alta competitividade – Estados Unidos, Japão e Alemanha – essa relação chega a 80%. Ou seja, a grande maioria dos pesquisadores dessas nações estão na indústria. O que significa, obviamente, que nos países em que a competitividade é levada a sério a indústria se preocupa muito com a inovação.
REVISTA ENGENHARIA – Inovação pode ser considerada hoje uma palavra-chave, não? LANDI – Exatamente. Porque é a inovação que determina a definição de nichos de mercado onde a empresa pode atuar economicamente. Nesse aspecto, nós estamos em enorme desvantagem, devido à ausência dessa circunstância. Somos poucos trabalhando em inovação. Poucos mesmo. Não se formou ainda entre nós uma cultura de inovação – e também de exportação de produtos –, algo que nos permitiria competir mundialmente, com qualidade e produtividade. A indústria até percebe essa necessidade, mas ela tem tantos problemas pela frente – capital, folha de pagamento, encargos sociais, impostos, taxas, juros elevados – que acaba se perdendo um pouco nessa questão crucial da atualidade, que é a inovação tecnológica.
REVISTA ENGENHARIA – É uma desvantagem e tanto. Mas, há esperanças de mudança do quadro, uma vez que inovação, ao que o senhor sugere, significaria adicionar valor à produção via novas tecnologias? LANDI – Bem colocado. Com as novas tecnologias surgidas da pesquisa é possível agregar valor à produção. Sim, posso dizer que há grandes esperanças. Até porque nem tudo é desvantagem do nosso lado. A grande vantagem do brasileiro é que ele faz bem feito. Quando se fala em atuar com qualidade, o profissional brasileiro é muito competente e batalhador. Isso inclusive até causa espécie às empresas que chegam de fora... Eles se admiram com a facilidade com que o engenheiro brasileiro se integra. Não que seja um mérito tão especial, mas temos essa abertura de atitude. Eu sempre cito aquela parábola chinesa da taça de chá. Se a taça está vazia pode-se colocar chá até encher; se a taça está cheia, mais uma gota e ela transborda. Dentro dessa filosofia, o que quero dizer é que nossa cultura absorve outras culturas, ela não é auto-suficiente em si própria – o que impediria a penetração de outras. Nossa cultura é, por tradição, formada pelo somatório de outras culturas. Mas que temos competência, não há dúvida.
REVISTA ENGENHARIA – E sobre o impacto da construção civil – atualmente em dificuldades – sobre toda a cadeia produtiva do construbusiness no País, o que o senhor diria? LANDI – Também aí estamos muito mal do lado econômico. Em relação ao aspecto tecnológico, porém, conseguimos alguns avanços notáveis. Posso dizer que aí, até com uma pequena contribuição de minha parte, conseguimos transformar o ensino e as pesquisas brasileiras em construção civil num conceito de base científica. Quero dizer com isso que a forma de fazer as coisas na construção civil sempre foi transmitida de uma forma oral. Sempre na base do "como" se faz e não porquê as coisas são feitas. Então, logramos instalar no Brasil a busca dos porquês. Isso transforma o ensino e o uso de novas tecnologias. O que antes era na forma descritiva agora virou a busca de novos processos, novas tecnologias que baixem o custo e resultem em melhor qualidade do produto.
REVISTA ENGENHARIA – E a Escola Politécnica desempenha um papel marcante nesse processo, não? LANDI – Sem dúvida nenhuma. Conseguimos criar no núcleo da Poli e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) um centro para a construção civil que é hoje nacionalmente reconhecido pelas suas bases científicas. Diria que hoje esse centro é considerado um dos melhores do mundo e eu me sinto muito recompensado por esse trabalho. Os jovens que dele participaram constituem hoje um grupo privilegiado, passados cerca de 25 anos. Agora, o material de construção é visto sob outro ângulo. Ou seja, qual a ciência, os fenômenos físicos e químicos segundo os quais esse material reage? E quais os critérios para se usar este ou aquele material? Partimos para materiais compostos, para o uso de plástico na composição do material, processos de tecnologia esses que estão modernizando a construção civil...
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