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e d i ç ã o 5 4 0 / 2 0 0 0 Marcus Vinicius Oliveira dos Santos
O Brasil, mais próximo da autonomia no uso pacífico da energia nuclear
O Brasil encontra-se a poucos passos de uma significativa vitória no campo da energia nuclear com fins pacíficos, ao dar prosseguimento à estratégia para chegar à construção de um submarino de propulsão nuclear que deverá estar concluído no primeiro quarto do século XXI, afirmou à REVISTA ENGENHARIA o diretor do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo, contra-almirante Marcus Vinicius Oliveira dos Santos. O submarino de propulsão nuclear terá, entre as suas prioridades, defender os quase 8 mil quilômetros da costa marítima brasileira. O projeto faz parte do programa de Capacitação Nuclear da Marinha, que contempla duas áreas - a do ciclo do combustível nuclear e a de propulsão nuclear. Com essa conquista o País, que não recebe qualquer tipo de ajuda externa para este programa, não precisará recorrer a nenhum dos cinco países que atualmente detêm a tecnologia necessária mas que se recusam a transferi-la - Estados Unidos, França, Inglaterra, Rússia e China -, pois esta "lhes garante liberdade de movimentação nos oceanos, permitindo-lhes manter suas supremacias". No entanto, para chegar a esse estágio, a Marinha brasileira teve antes que capacitar-se no desenvolvimento do ciclo de combustível nuclear, de modo a garantir o suprimento do combustível nuclear para os seus reatores, concentrando seus esforços iniciais na etapa de maior complexidade tecnológica - o enriquecimento isotópico do urânio. Tal iniciativa acarretou, por sua vez, uma série de benefícios para a indústria brasileira, tanto que atualmente já são fabricados no Brasil numerosos materiais, componentes, equipamentos e sistemas com alto grau de tecnologia agregado, entre os quais aço maraging, bombas de vácuo, válvulas e instrumentos de processo, que são utilizados em diversos outros setores além do nuclear, como das indústrias alimentícia, de química fina e farmacêutica. "Este programa possui grande efeito de arraste tecnológico", informa o diretor do CTMSP. Até agora já foram gastos no programa cerca de US$ 950 milhões, prevendo-se ainda um dispêndio de R$ 750 milhões para a conclusão de uma Instalação Nuclear de Água Pressurizada e instalações de demonstração industrial do ciclo do combustível. Atualmente 1.330 funcionários trabalham no projeto, que originou-se de uma estreita cooperação com renomadas instituições de pesquisa e universidades paulistas, entre as quais o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), a USP, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), a Universidade de Campinas (Unicamp), o Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e a Faculdade de Biologia da PUC, em Sorocaba, além da Universidade Federal de Santa Catarina.
REVISTA ENGENHARIA - O que é o CTM/Aramar? MARCUS VINICIUS OLIVEIRA DOS SANTOS - O Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo - CTMSP - é uma instituição de pesquisa e desenvolvimento pertencente à Marinha do Brasil, e que tem sua sede localizada no campus da Universidade de São Paulo, na Capital do Estado. Ao CTMSP foi atribuída a missão de executar as atividades do programa de Capacitação Nuclear da Marinha, que faz parte da estratégia para dotar o País de um submarino de propulsão nuclear no primeiro quarto do século XXI. O Centro Experimental Aramar - CEA, situado em Iperó-SP, é parte integrante do CTMSP, e foi concebido para atender, primordialmente, às atividades experimentais desse programa, que contempla duas áreas bem definidas: o ciclo do combustível nuclear e a propulsão nuclear. É importante ressaltar que o CEA é um Centro Experimental, o que significa dizer que suas instalações são de pequeno porte, semelhante a outros centros de pesquisas nucleares existentes no mundo.
REVISTA ENGENHARIA - Como funcionam estas duas instituições, o CTMSP e o CEA? Qual é o seu modelo gerencial? SANTOS - À equipe técnico-gerencial do CTMSP, reforçada por consultores e pesquisadores de outros institutos de pesquisas do País e de universidades nacionais, cabe a concepção de todos os projetos que fazem parte do programa. Os projetos básicos e de detalhamento são contratados, mediante processo licitatório, às empresas projetistas nacionais. E a equipe técnica responsável pela concepção é também incumbida da fiscalização e verificação não só dessas atividades de projeto contratadas externamente, bem como das atividades de fabricação e construção delas decorrentes. As atividades de concepção são realizadas na sede, enquanto no CEA são executadas as atividades experimentais. Por essa razão, ali estão sendo implantados diversos laboratórios e bancadas de teste; um protótipo em terra da planta de propulsão nuclear; as unidades piloto de demonstração industrial do ciclo do combustível nuclear; oficinas especializadas; e toda infra-estrutura de apoio a essas instalações.
REVISTA ENGENHARIA - Por que instituições tão importantes estão localizadas em São Paulo se o comando e a maior base operacional da Marinha se situa no Rio de Janeiro? SANTOS - O local escolhido pela Marinha para sediar as atividades do seu programa de propulsão nuclear foi o Estado de São Paulo, devido à existência, nesta próspera unidade da Federação, de um parque industrial bem consolidado e de excelentes instituições de pesquisa e universidades. Assim é que, favorecido por tais condições, este programa originou-se de uma estreita cooperação com renomadas instituições de pesquisa e universidades situadas neste Estado, destacando-se, de início, o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN); a USP; o Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT); a Universidade de Campinas (Unicamp) e o Centro Técnico Aeroespacial (CTA). Essa cooperação foi posteriormente ampliada, com a participação de outras instituições localizadas em São Paulo e em outros Estados.
REVISTA ENGENHARIA - E por que Iperó? Um submarino não deveria ser desenvolvido num estaleiro? SANTOS - A escolha de Iperó foi resultado de um criterioso processo seletivo, que envolveu a análise de cerca de dez locais situados a uma distância de aproximadamente 100km da sede do CTMSP na Capital do Estado, de modo a facilitar a movimentação da equipe técnico-gerencial entre a sede e o centro experimental cuja implantação ali seria realizada. O local deveria reunir condições favoráveis quanto a climatologia; topografia; geologia; sismologia; hidrologia; energia elétrica; meios de transporte; disponibilidade de água; pouco comprometimento dos recursos naturais na preparação do local e construção das instalações previstas; e facilidade para aquisição. Este último requisito foi decisivo para a escolha de Iperó, pois o sítio ali encontrado, além de atender a todos os demais requisitos, já pertencia à União, o que significava custo zero de aquisição. Respondendo à segunda parte da pergunta, cabe frisar que no CEA será construída apenas uma instalação protótipo da planta de propulsão nuclear, e não o submarino, o qual deverá ser construído futuramente, na época apropriada, no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro - AMRJ. Vale acrescentar que em todos os países que dominam a tecnologia de submarinos nucleares, foi projetado e construído um protótipo terrestre da planta de propulsão nuclear, com o objetivo primordial de assegurar previamente os atributos básicos de segurança e eficiência da instalação embarcada... |
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